Gostaria primeiramente de pedir desculpas aos leitores do Indignados, já que o blog não vem sendo atualizado com a frequência desejada. Explico que isso não ocorre por falta de Indignações. Elas estão aí, aparecendo sempre, minuto a minuto. Mas há algo que às vezes fala mais alto: a preguiça que, unida à falta de tempo (desculpa corriqueira usada por quase todos nós), impede novas postagens por aqui.
Creio que essa preguiça não seja apenas uma realidade minha, mas de boa parte dos brasileiros e de diversos cidadãos no mundo inteiro. Quem nunca se indignou com algo – um descaso do governo, falta de respeito de algum empresa no atendimento ao público, alta de preços, leis absurdas, corrupção, impunidade, buracos na rua, falta de segurança, abuso de autoridade, produto estragado, propaganda enganosa, problemas com plano de saúde, exploração no trabalho, cobranças indevidas…? Mas de tudo isso que passamos, quantas vezes chegamos a formalizar essas Indignações e reclamar por escrito ou tomar medidas para a solução do problema?
Essa nossa falta de cobrança geralmente ocorre quando o transtorno em si é pequeno, pois pensamos: “Não vale a pena brigar por isso”. No entanto, o nosso cotidiano é cheio desses “probleminhas” que, somados, são capazes de infernizar o nosso dia-a-dia. Lutar por respeito e por aquilo que nos é direito pode mudar não apenas um ou outro aspecto da nossa vida, mas um conceito da sociedade em relação aos “pequenos delitos”. Não que tudo tenha que ser levado a ferro e fogo. Mas o fato de um problema ser considerado pequeno ou ínfimo não justifica que ele se repita por toda a eternidade.
Aproveito para deixar uma dica a todos que enfrentam diariamente “pequenos transtornos” urbanos: existem sites especializados em cobrar soluções do poder público para essas falhas diárias de cada dia nos dai hoje. Faça sua parte, reclame, cobre soluções e colabore para a melhoria de nosso cotidiano.
Quer saber mais? Veja abaixo uma reportagem que fizemos sobre esses sites de Webcidadania no Jornal da Gazeta:
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Promotor do caso Isabella é contra aumento do número de jurados e proibição do uso de inquéritos no tribunal
Érica Medeiros, Kauanna Navarro e Gianvitor Dias
Em entrevista exclusiva, o promotor de 49 anos fala sobre suas insatisfações com o atual sistema judiciário e a atuação da mídia em casos de repercussão nacional.
Como você enxerga o seu futuro na promotoria?
Acredito que eu ainda permaneça algum tempo no júri. Claro que algumas alterações que estão sendo pensadas no código de processo penal podem mudar muito o meu pensamento. Se eles mexerem de tal maneira que piore o júri então talvez eu não tenha nem motivação para continuar.
E quais alterações fariam você sair do júri?
Uma das mudanças é o aumento do número de jurados, de sete para oito. Isso vai trazer um ônus maior para os promotores. Hoje quem decide um julgamento é a maioria simples, quatro votos é o que você precisa para decidir o júri. Com essas novas regras será necessário cinco votos, porque o empate absolve o réu. Outra modificação pensada é evitar que o inquérito, que é um procedimento inquisitivo, seja o usado no júri sem prover uma garantia melhor para proteção de testemunhas. Assim, a pessoa que foi ouvida na polícia e comprometeu o réu chega em juízo sem proteção e acaba mudando o depoimento. Pelas regras que estão tentando implantar, apenas o último depoimento poderia ser mostrado para o júri. O primeiro depoimento serviria apenas para o promotor denunciar. Assim, o que nós vamos ver é uma enxurrada de absolvições. Se alterarem o júri dessa maneira, que praticamente inviabiliza o trabalho dos promotores, é muito provável que eu me desmotive.
Você acha que a mídia ajuda ou atrapalha em um caso?
Eu acredito que a mídia tanto ajuda, quanto atrapalha. É um mito dizer que a mídia é responsável por condenações no júri, que ela arrasta as pessoas para lama, isso é um pouco de exagero. O que a mídia faz é divulgar, com alguns excessos que naturalmente acontecem nos casos emblemáticos. Mas ela divulga basicamente as provas que existem e não tem o poder de criar novas provas nem um novo processo. Ora, nós temos de criticar a mídia por isso? Por ter o poder de informar o povo? E se amanhã ou depois surgir uma prova que absolva completamente o réu, não vai poder ser divulgado? É muito delicado as pessoas exigirem que a mídia limite o seu poder de divulgar informações para o grande público. Eu sou plenamente favorável que ela divulgue e responda por eventuais excessos cometidos, por abusos, como ocorreu na Escola Base. E não compactuo em hipótese nenhuma nesses casos. Agora, quanto a vetar o poder de informação e a liberdade que a imprensa tem de divulgar os fatos, sou radicalmente contra.
Em sua opinião, houve algum erro na cobertura do caso Isabella?
Eu vi uma louca corrida pelo Ibope. Eles queriam a todo o momento novidades e, num caso como esse, primeiro você precisa ter equilíbrio para produzir a investigação, que não pode ser iniciada ou finalizada em três ou quatro dias. Uma das falhas dessa cobertura foi a ansiedade da imprensa, que exigia, em uma velocidade absurda, respostas que nem eu mesmo tinha. Nós precisávamos de, pelo menos, trinta dias para as investigações serem finalizadas. Na primeira entrevista coletiva que dei, cinco ou seis dias depois do crime, eles já queriam saber qual a pena que seria pedida. O casal Nardoni nem era réu ainda, e sim investigado naquele momento. Muitos profissionais da imprensa vinham e pediam pelo amor de Deus para serem atendidos, porque haviam recebido verdadeiros sermões de seus chefes. Isso vira uma bola de neve: o diretor cobra o profissional da imprensa, que por sua vez cobra a mim e ao delegado. Tudo isso para satisfazer os interesses do dono da emissora. Mas a coisa não seria produzida no tempo da emissora, e sim no nosso tempo – como, de fato, foi.
Em março, quando houve o julgamento do caso Isabella, houve uma alegação de que o clamor público teria influenciado na decisão do júri. O que você acha desta alegação?
Não houve nada disso. Isso me parece uma desculpa daqueles que perderam o júri e querem justificar a condenação atribuindo a culpa à mídia. O que houve foi um julgamento absolutamente democrático, legal, transparente, no qual tive a responsabilidade de mostrar aos jurados tudo o que conseguimos apurar em dois anos de processo. Boa parte disso foi divulgada pela imprensa. O júri não condenou porque a mídia transformou este caso no de maior repercussão jurídica na história do Brasil. O jurado condenou porque as provas do processo mostraram que havia a necessidade de condenar.
Como você vê a lentidão no judiciário? Existiria alguma forma de agilizar o processo sem que o réu fosse prejudicado?
Não há dúvidas de que a justiça ainda é considerada lenta. O caso Isabella foi uma exceção: desde o fato até o julgamento nós tivemos um ano e nove meses. Quisera eu ter essa rapidez na maioria dos nossos processos. O nosso código de processo penal é da década de 1940, quando as pessoas ainda andavam de bonde em São Paulo e localizar uma testemunha era muito mais fácil. Havia muito menos processos e varas, o acervo era muito menor. Hoje, a pessoa presencia um crime e, até ela ser chamada para vir aqui [ao Fórum], já mudou de endereço. Existem vários fatores que são responsáveis pela lentidão da justiça e os advogados também têm a sua parcela de colaboração. Eles recorrem de tudo, acabam impetrando recursos em cima de recursos. Há uma necessidade de aprimoramento de todos os institutos, não só do judiciário.
Você ainda fica nervoso após tantos júris?
É lógico. Todo júri ainda traz preocupação. Quando vai se aproximando o momento em que o juiz vai dar a palavra a você, o momento de ficar em evidência, sempre há um desconforto. Dá aquele frio na barriga pois é o comportamento inicial que vai ditar o ritmo do restante. Você tem sempre que começar bem para poder adquirir confiança e se situar. Claro que em certos julgamentos, depois de três, quatro minutos de fala, você está completamente solto no plenário. Mas ainda hoje causa preocupação sim.
Como você se prepara para um caso?
Na maioria dos casos há uma preparação que antecede o julgamento, que é reunir aquilo que vai ser usado, mas o estudo mesmo do processo eu faço na véspera. Quando não é muito grande estudo até no mesmo dia, assim vou para o plenário com tudo muito vivo na cabeça. E, assim que termino um julgamento, procuro me esquecer daquele caso, porque logo vou ter outro.
Você se lembra mais das vitórias ou das derrotas?
Como eu ganho 95% dos júris que disputo, eu só posso me lembrar das vitórias; às vezes fico três anos sem perder um júri. Acho que não cheguei a 25 derrotas, o que daria uma média de, mais ou menos, um júri perdido por ano. O júri não é feito só de vitórias e você precisa também se educar para enfrentar esses maus momentos que, felizmente, são a exceção da exceção. Os mais antigos dizem que você tem que aprender a conviver bem com a derrota. Eu, felizmente, ainda não aprendi a conviver com isso e nem vou aprender. É o que me motiva a sempre ser melhor e a lutar por resultados. Acho que o promotor do júri tem que ser cobrado pelo resultado. Não adianta você fazer seu trabalho super bem e depois não alcançar o objetivo esperado.
O jornalista Irineu Perpétuo participou do quadro Repórter i, do blog Indignados. Ele falou sobre suas indignações relacionadas à profissão de jornalista (os vídeos também estão disponíveis em alta definição – YouTube HD 1080p):
Érica Medeiros, Kauanna Navarro e Gianvitor Dias
Crítico de música erudita Irineu Perpétuo fala com bom humor e irreverência sobre sua carreira
Irineu Franco Perpétuo: o "indignado" que vive de arte!
No coração do “planeta Cerqueira César” – como o jornalista Irineu Franco Perpétuo define o bairro da capital paulistana onde vive desde que nasceu, há 39 anos – é onde trabalha em seus textos sobre música erudita e faz traduções de russo, italiano e inglês, alguns dos sete idiomas que domina. Escreve para o jornal Folha de S. Paulo, para as revistas Bravo e Concerto, é colaborador da TV Cultura e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual, publicação de Barcelona, na Espanha. Também ministra cursos na Casa do Saber, no Instituto Moreira Salles e no Centro Universitário Maria Antonia, da USP (Universidade de São Paulo).
Na sala de seu apartamento há livros em russo sobre a mesa, artefatos indígenas nas prateleiras – lembrança das viagens a Belém e Manaus – fotos de família e estantes cobertas de livros, CDs e DVDs. Em meio a esse cenário, ele conversou sobre o que é ser um crítico de música, sobre os rumos da crítica de arte no Brasil, sobre a influência das novas mídias na música clássica e declarou sempre ter sido a favor da livre troca de bens culturais materiais e imateriais – antes mesmo do termo open source ser a bandeira dos militantes em prol do software livre. Para ele, a criação original é um mito e a genialidade do artista está em remixar a informação e transformá-la em algo único.
O jornalista, que muitos chamam de crítico, fala de sua indignação com a profissão da dificuldade de se viver de cultura no Brasil.
Como surgiu a música na sua vida?
Foi uma coisa de adolescente. Eu lembro que eu estava lendo, ou achava que estava lendo os clássicos da literatura, e aí em um daqueles raciocínios muito simplórios que a gente faz nessa idade, pensei que se estava conhecendo os clássicos da literatura, queria conhecer os clássicos da música também. Quando comecei a trabalhar, a primeira coisa que eu comprei com o meu salário foi um fone de ouvido para não atormentar o resto da casa com as minhas obras.
E como você seguiu essa intuição para trabalhar com a música erudita?
Na verdade, foi um gosto que virou trabalho meio por acaso. Em 31 de dezembro de 1993 comecei a trabalhar no Acontece, na Folha de S.Paulo, e eu identifiquei um caminho especializado, ou seja, o mercado tinha que ter um selinho para colar na sua cabeça, e entre as minhas possibilidades eu achava que escrever sobre música erudita poderia ser um caminho interessante.
Open source [termo da cultura hacker para designar os softwares de código livre]?
Eu sou completamente open source antes de existir o próprio conceito open source. Já houve concerto no Municipal de São Paulo que foi regido com partitura do meu acervo. Eu sempre achei uma indecência eu ter um monte de coisa assim [se referindo à enorme quantidade de livros e CD’s nas estantes da sala de seu apartamento]. A gente só tem esse bando de coisa porque não temos fonotecas decentes, bibliotecas decentes.
E quanto às suas matérias sobre música: é em português ou em “musicologuês” que você escreve?
Não acho que você tem que humilhar o leitor, se esconder atrás do jargão. É o contrário. Eu tenho que usar o conhecimento para traduzir a informação. O jornalista é um mediador. O jornalista não é um musicólogo. O fato de entender das coisas é o que justamente permite fazer a mediação entre um mundo e outro.
Como é ser um crítico de música erudita no Brasil?
A gente se vira de diversas formas. O jornalismo em geral é um horror, a gente tenta se virar neste mundo. Tem que fazer um monte de coisa. Faço 500 coisas.
Você trabalha como tradutor. Quantos idiomas fala?
Você acha que com a segmentação das revistas e com a popularização da internet, ficou mais fácil escrever? Aumentou a demanda por esse tipo de conteúdo?
Está muito mais fácil de escrever sobre qualquer assunto. A gente não tem mais desculpa para ser desinformado e pra errar. A Internet pra mim é um museu imaginário. Quando eu comecei era mais complicado: ou você tinha um livro a respeito da obra, ou você comprava o CD para ter a capinha e saber, ou então não achava. Hoje isso é excepcional. Revistas segmentadas no caso da música de concerto, eu já escrevi em várias e matei todas. O mercado não é muito grande para nós, mas a música de concerto vem recebendo incentivo e registrando um aumento de público no Brasil. A coisa não está tão ruim assim.
Qual é o seu processo de criação para os seus textos de crítica?
Não é criação, é jornalismo. O texto tem que ser escrito em português, tem de ser inteligível para poder dialogar com o leitor. Claro que toda área tem o seu jargão, o jornalista esportivo não vai explicar o que é pênalti, o economista não vai explicar o que é taxa de juros, então eu acho que não vou ter que explicar o que é um violoncelo. Mas a gente não pode se esconder atrás do jargão. Não gosto de texto pedante. Eu priorizo a clareza de expressão e, para você se expressar claramente, tem que ter ideias claras na sua cabeça.
Essas são as características que você acredita que um crítico de arte deve ter?
Eu acho que são as características do texto. Se você está escrevendo um jornal, tem que ter as características do bom texto jornalístico.
Como você enxerga o jornalismo cultural geral no Brasil hoje?
É como a Iugoslávia: todo mundo quer um pedaço maior, mas não tem para todo mundo. Sempre foi uma situação meio complicada por causa da limitação física do espaço no jornal. Nunca dá pra dar tudo e você tem que ter uma noção de critério clara. No caso da música de concerto, a gente tem um problema que diminuiu um pouquinho, mas que ainda é muito grande: a falta de inserção dessa música na nossa sociedade, na nossa cultura. Dizem que é música de elite, mas nesse caso é menor do que a elite. E se tem menos gente que se interessa por aquilo, tem menos espaço. Não acho que seja injusto, inclusive.
E na sua opinião, qual é a função da crítica?
Boa pergunta. Quase não existe. Mas vamos fazer de conta que existe.
E se existisse, qual seria a sua função?
Se existisse talvez ela esteja deixando de existir justamente porque não cumpra função alguma, mas ela deveria cumprir algumas funções para o público e para o artista. Devolver para o artista criticamente aquilo que ele está fazendo. Dar uma visão de fora daquele trabalho, depois refletir sobre um aspecto mais geral e estético daquilo que está acontecendo. Para o público, há uma função bastante precisa: informar. Ir a um espetáculo e criticá-lo também é informar. E uma coisa é crítica da obra, ouvir a primeira audição de uma peça, dizer se essa música presta, ou não. Mas quando você vai ouvir a nona sinfonia de Beethoven, é consenso generalizado de que aquela música presta. Você está lá para julgar não é se a nona sinfonia de Beethoven é boa ou não, mas se estão tocando aquilo direito, ou não. E no nosso caso da música de concerto há também uma função fiscalizadora. Muito do que se faz nesse tipo de atividade no Brasil é feito com dinheiro público, então a crítica de orquestra, de um teatro, de entidades que são geridas com dinheiro do governo, é também dizer se o subsídio que está sendo dado para aquele tipo de atividade está sendo gasto direito ou não.
E você acha que é isso que se propõe a sua crítica?
Diria que são princípios norteadores.
Existem muitos concertos aqui em São Paulo?
Então, tem algumas iniciativas. Se a música erudita dentro da sociedade precisa de estímulo, a música contemporânea dentro do erudito precisa de um estímulo adicional. De vez em quando a OSESP [Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo] tem uma política de encomendar obras, todo ano estreiam alguma coisa. Várias orquestras ou festivais lá fora tem o hábito de ter o compositor residente, como eles chamam. Um cara com o qual você trabalha e que encomenda um número de obras. Você sempre tem que criar esse tipo de mecanismo para fazer a música nova entrar. Como resultado, os compositores contemporâneos dificilmente vivem de compor. Aqui no Brasil a maioria dá aula em universidades.
Eles vivem de que?
Hoje em dia, onde tem demanda pela música contemporânea é na música popular. Se o Chico [Buarque] ficar cinco anos sem gravar um disco, você diz que o cara acabou. Se você for olhar no catálogo do Bach são mais de mil obras, Mozart viveu 85 anos e compôs 620 obras. Por quê? Porque ele tinha inquietação metafísica e tinha que todo dia fazer alguma coisa nova? Não, é porque havia uma demanda constante por música do presente. Eles estavam criando sempre. Quando começou o século 20 começou essa inversão total da música do passado predominar na música erudita. Mas aí surgiu essa grande vertente da música contemporânea, que é a música popular. Os caras estão fazendo música contemporânea o tempo todo. Aí, é engraçado: se a OSESP toca uma obra de 1960, é considerada uma coisa muito moderna, muito legal. Uma parte do público nem aguenta isso. Mas se uma banda tocar um cover dos Beatles, da mesma década de 1960, as pessoas pensam: “que coisa velha!”. A lógica virou.
Como você acompanha o trabalho dos novos compositores? Existem novos compositores hoje?
A música contemporânea, dentro da música erudita, é um nicho dentro do nicho. Como se fosse a banda de garagem dentro do pop. É quase um circuito paralelo. Então não é ignorância das pessoas que não conhecem, porque mesmo o circuito estabelecido toca autor vivo, mas é muito pouco. Vocês entrem em qualquer site de orquestra e a maioria esmagadora das obras tem data de nascimento e data de morte do cara. Mas isso não significa que não tenha um monte de gente fazendo música nova. É que acabou virando um circuito paralelo. Com a Internet, o mundo open source dá para gente começar a conhecer melhor a música desses caras. Lá atrás, era muito mais difícil. Você tinha que ir aos festivais, ir atrás dos músicos e das gravações. Era uma África, no sentido de que era um continente inteiro, uma tarefa enorme. Hoje está mais simples. Para a música contemporânea, só teve benefício usar as tecnologias novas como circulação.
Tem algum compositor brasileiro contemporâneo que está se destacando?
Para qualquer compositor brasileiro depois de Villa-Lobos, o destaque é relativo, não é igual ao dele. Hoje, tem o Felipe Lara, de 31 anos, que dentro do cenário da música de vanguarda conseguiu coisas importantes. Ano passado, a Filarmônica de Nova Iorque encomendou uma obra de um compositor brasileiro chamado Arthur Kampela, que mora nos Estados Unidos. Em dezembro do ano passado, a Filarmônica de Nova York tocou Macunaíma, uma obra dele. Isso é histórico. O Marlos Nobre, compositor de Pernambuco que tem 70 anos, ganhou um prêmio importante na Espanha. Um cara que eu adoro é o Almeida Prado, aqui de São Paulo, também dos mais velhos, ele está com 67 anos e também teve destaque internacional. Mas nenhum deles está no topo dos destaques internacionais, mas são os que chegam mais próximos disso.
Dentro desses compositores eruditos contemporâneos, dá para a gente traçar algum estilo?
Na música como nas outras artes, nós estamos na pós-modernidade. Lá atrás você falava do romantismo, do classicismo. No século 20, os “ismos” são contemporâneos e até contrastantes entre si. Talvez seja essa a maior característica da música do pós-guerra. É difícil você dizer que alguém é hegemônico. Se até os anos 1970 a música contemporânea era mais de vanguarda, de uns trinta anos para cá continua havendo essas tendências, mas o hegemônico tem sido mantido por compositores que tentam se comunicar com o público, que tentam atingir mais gente.
A tecnologia digital alterou muito o processo de produção da música?
Nessa área de arrefecimento dos direitos autorais a produção de coisas novas aumentou e só tinha que aumentar, porque se resolve vários gargalos com o digital. Primeiro, o gargalo do custo e qualidade da produção. A distribuição e a divulgação também. Tem vários fenômenos virais da Internet, como Malu Magalhães, que se fazem fora desse “circuitão”.
Hoje nós falamos da indústria cultural como os “bilheteiros”, mas antes havia a Igreja que fazia esse papel de controle do conhecimento. Podemos afirmar que eles sempre existiram?
Sempre vai ter quem queira controlar, mas na Internet há uma contradição muito evidente, pois é um meio que favorece a circulação. A lógica do desenvolvimento da web vai cada vez mais aumentar a velocidade e, portanto, facilitar a circulação desse bem imaginário, bens não simbólicos. É como diz o Sérgio Amadeu [co-autor do livro O Futuro da Música Depois da Morte do CD, São Paulo, Momento Editorial, 2009]: se você tem uma maçã e eu tenho uma maçã, a gente troca, cada um fica com uma. Se eu tenho uma idéia, você tem uma idéia, a gente troca e cada um fica com duas. Todo conhecimento que existe, toda arte que existe, é feita de maneira compartilhada e tudo é criado a partir do preexistente. Na música existe o mito da originalidade que é bobagem. Tudo é remixagem, reciclagem. E isso não tira mérito de ninguém. O recombinar é uma arte genial.
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A partir de hoje, o blog Indignados passa a contar com mais uma novidade: o Repórter i, uma série de videorreportagens sobre situações que causam indignação. Nossos vídeos também estarão disponíveis na tecnologia YouTube HD, em alta definição (FullHD). Basta selecionar, na barra inferior do vídeo, a opção 1080p HD.
Veja a primeira reportagem:
No “post de estreia”, fui conferir a organização da 6ª Virada Cultural, realizada nos dias 15 e 16 de maio na cidade de São Paulo. Apesar de gostar da proposta do evento, creio que deixou muito a desejar em vários quesitos, principalmente na limpeza.
Mesmo estimando um aumento de 25% do público para este ano, a Prefeitura só aumentou em 11% o número de banheiros químicos, que em 2009 já eram insuficientes. E o número de varredores, ajudantes de limpeza e coletores? O mesmo do ano passado: 1.196 no sábado e 504 no domingo.
Ao saldo negativo do evento, podemos adicionar a morte de um adolescente, assassinado durante uma briga. Veja o balanço do esquema de segurança da Virada Cultural 2010, repassado ao Indignados pela Polícia Militar do Estado de São Paulo:
“Foram alocados aproximadamente 1.776 policiais militares em 41 pontos diversos da Capital, sendo obtido o seguinte resultado:
- 672 pessoas abordadas;
- 3 pessoas presas em flagrante delito, sendo 1 furto, 1 porte de entorpecente e 1 tráfico de entorpecente;
- 119 veículos fiscalizados;
- 62 motocicletas vistoriadas;
- 86 condutores autuados;
- 106 autos de infração de trânsito urbano confeccionados;
- 19 estabelecimentos comerciais fiscalizados;
- 1 homicídio, registrado no 3º DP;
- 7 pessoas conduzidas a Prontos Socorros.”
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O cúmulo da indignação é gastar a minguada 1 hora de lamoço na fila de um banco e assistir, de camarote, a turma da melhor idade, que tem o resto do dia livre para pagar as contas, ir ao banco em peso nesse horário e passar na sua frente.
Sei que o assunto foi o tema do post anterior, que inclusive traz o vídeo com a reportagem que ajudei a produzir na TV Gazeta. Mas este post é para analisar um outro aspecto do problema: o apoio da mídia, de maneira geral, ao voo duplo de asa delta comercial – afinal, programas de TV frequentemente mostram atores, repórteres e apresentadores vivendo essa “super aventura”, mas obviamente esquecem de citar um pequeno detalhe: a venda de voo duplo de asa delta e de parapente é ilegal segundo o Regulamento Brasileiro de Homologação Aeronáutica (RBHA) 103A (p.12) e 104.
Exemplos não faltam. Um dos mais recentes é o destaque dado pela TV Globo à venda de voos duplos de asa delta na novela-das-oito-que-começa-às-nove Viver a Vida. Veja o making of das cenas, gravadas no fim de 2009 no mesmo local onde houve o acidente fatal com Ana Rosa (vide post anterior):
Eis abaixo as cenas que foram ao ar na novela. Note o trecho do diálogo em 1’56″: Renata “-Não tem perigo de cair no mar?” | Felipe -”Perigo tem porque eu já caí algumas vezes. Mas eu acho que hoje a gente vai pousar naquela areia branquinha lá ó…”
Em nenhum momento foi explicado ao telespectador que a venda de voo duplo é ilegal, e o voo mostrado nas cenas visivelmente não tinha fins instrucionais. Logicamente, após algum tempo, alguém da emissora deve ter percebido o problema, e o personagem Felipe rapidamente deixou de ser instrutor/vendedor de voo duplo e assumiu outra profissão na trama, mais politicamente correta. Ainda assim, ninguém assumiu o erro a ponto de divulgar isso no ar e alertar os telespectadores sobre a ilegalidade da prática veiculada.
Outros exemplos desse tipo de veiculação podem ser facilmente encontrados. Eis um vídeo do Pânico na TV, da RedeTV!:
RedeTV! – Narcisa voando com Renato Janssens:
As escolas de voo livre, por sua vez, dizem que vendem apenas cursos e que os voos duplos têm fins instrucionais, mas muitas se contradizem em seu próprio site! É o caso dessa conhecida escola em Atibaia/SP (que realizou os saltos do Pânico na TV! no vídeo acima). Entrem no site e cliquem em “Voo Duplo”. Lá está escrito em negrito e caixa alta: “VOCÊ NÃO PRECISA TER EXPERIÊNCIA“. A ideia passada é essa: basta chegar e pular, “sem compromisso”. Isso não parece propaganda de curso. E se fosse curso, então porque eles informam apenas o preço do voo? Não deveriam falar o preço do curso todo, com os voos instrucionais e aulas teóricas – tudo incluso?
Para quem ainda não assistiu, segue novamente abaixo a reportagem sobre a venda do voo duplo de asa delta e parapente, exibida em 27/04/2010 no Jornal da Gazeta:
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Várias coisas me causam indignação, mas poucas me causam tanta quanto o descaso. Ainda mais quando este descaso leva pessoas à morte. Pouca pessoas sabem, mas o voo duplo de asa delta com fins lucrativos é proibido pela legislação aeronáutica brasileira. O motivo é muito simples: o risco que essa prática representa para pessoas não preparadas. Pois bem, não é segredo para ninguém que esta proibição de nada tem adiantado. Isso por si só já poderia ser um grande objeto de indignação. Mas a coisa piora quando as pessoas fazem descaso da luta alheia. Foi o que aconteceu com uma amiga, Nádia Lapa, que teve a sua luta satirizada. Sua irmã, Ana, morreu em 2003 em um acidente de asa delta no Rio de Janeiro, desde então ela vem lutando para que a lei do voo duplo seja cumprida. Ela publicou um post em seu blog e recebeu o seguinte e-mail de resposta:
Sua irmã não vai mais volta!voce pode fazer o que quizer e esta é a realidade que deve seguir,infelizmente em 35 anos de voo duplo ela fez parte desta triste estatística.O voo duplo nunca vai acabar!Esta é uma atividade existente em todo mundo!Como no futebol existe a falta no voo livre também existe incidentes e isso é em todos os esportes.O voo livre já está incorporado no calendário cultural esportivo do Rio de Janeiro,só ano passado fizemos 40 mil voos,ou seja,40 mil sorrisos,retorne em São Conrado e venha ver com seus própios olhos o que mundou.Luciao.
Por favor, como ter a coragem de dizer que a irmã de alguém virou estatística? Mais do que isso, ignorar que pessoas morrem nesta prática que é ilegal (isto aqui é um pequeno detalhe)?
A TV Gazeta fez uma reportagem sobre o assunto. A nossa amiga Nádia Lapa deu o seu depoimento na reportagem:
E não é de hoje que a imprensa, nem que seja timidamente, tem falado no assunto:
Infelizmente a irmã de Nádia não foi a única que teve um destino trágico em um acidente como este. Mas espero que com divulgação e esclarecimento do perigo que este dito “esporte” representa, ela sirva para que outros não tenham o mesmo destino.
Neste vídeo o instrutor comete erro, salta de pára-quedas e abandona turista sozinho no ar .
Fonte Jornal O Dia:
O turista americano Kenny Reyee, 30 anos, ficou ferido em acidente com a asa-delta na qual fazia voo duplo com o instrutor Eduardo Nascimento Coelho, 45, neste sábado à tarde, em São Conrado, na Zona Sul. O instrutor também se feriu. Após o salto, da Pedra Bonita, Eduardo, que havia se esquecido de se prender à asa-delta, logo acionou o pára-quedas e deixou sozinho o americano, que, sem saber o que fazer, acabou caindo na mata, alguns metros abaixo. Ele ficou preso por 45 minutos pelas cordas de segurança, enquanto outros instrutores de vôo acionavam os bombeiros. Eduardo ficou preso a árvore.
A fotógrafa Luiza Reis, que se preparava para saltar de parapente, filmou o acidente e o socorro.
Neste outro vídeo houve, felizmente, um acidente sem graves consequências:
Espero que fatos como esses não entrem apenas nas “estatísticas”.
Eu me indigno com aquelas pessoas que sabem sambar de verdade e deixam nós, meros mortais, com vergonha de nossos passos desengonçados. No bar Você vai se quiser, ou o “Samba da Praça Roosevelt” para quem é mais íntimo do local, é essa indignação do samba bom que você vai sentir caso não saiba como dominar o bom samba no pé.
Mas essa indignação vai logo embora se você gosta de uma boa comida. Todos os sábados na hora do almoço é servida aquela feijoada de dar água na boca. Como eu amo uma boa comida a especialidade da casa foi a minha pedida. Alguns podem achar o preço um pouco salgado, R$ 25,00 a cumbuca pequena, mas não desanime eles mandam 1L de pura feijoada que dá para três esfomeados se saciarem. Se for com uma turma maior pode pedir a travessa média (R$38,00 com 1,5L) ou a grande (R$55,00 com 3L). Esqueci de mencionar que esse prato dos deuses vem acompanhado e bisteca, couve com alho frito, banana à milanesa, farofa, torresmo e uma travessa de arroz. Quem quiser algo mais ousado pode pedir o mineirinho, prato composto de mandioquinha frita e calabresa com cebola. A ousadia está no fato de no meio da porção vir um dose caprichada de cachaça. A brincadeira sai por R$ 19,00.
Esta é a cumbuca pequena!
Mineirinho com a cachaça no meio
A minha indignação foi embora quando chegou a comida, mas se você é mais duro na queda, duvido que resista à boa música do bar. Melhor ainda, ao bom samba! O repertório é o velho samba de raiz. Ataulfo Alves, Arlindo Cruz e Luiz Carlos da Vila são alguns dos exemplos. Ah, sim, não poderia faltar o bom e velho samba enredo.
Mas se ainda assim você continuar indignado, sugiro que peça uma boa cerveja que vem bem geladinha. Ou, se preferir arriscar algo diferente, a batida de halls da casa é excelente. O drinque nada mais é do que o dropes de melancia ou morango batido com vodka e leite condensado. Depois de umas bebidas e outras, os meus amigos já haviam perdido toda a indignação e estavam achando que sabiam sambar.
Eu finjo que sei filmar!
Fica a dica para quem quer melhorar a sua indignação.
Samba não tem idade
Cadê a indignação?
Lotado, mas sempre cabe mais um
Serviço
Você Vai Se Quiser
Rua João Guimarães Rosa, 241 – Praça Franklin Roosevelt, Bairro Consolação
Telefone: 3129-4550/ 3129-4550
Funciona às sextas-feiras, sábados e na última quinta-feira do mês
LEMBRANDO que quem quiser mandar a sua indignação é só escrever para a gente: blogindignados@gmail.com
Sabe aquele vizinho que solta o cachorro na porta da sua casa e deixa o bicho fazer aquela sujeira na sua calçada? E aquela pessoa que ouve música alta no ônibus e parece que nunca ouviu falar de uma tecnologia chamada fone de ouvido? Lembra daquela empresa de telefonia que nunca te atende direito pelo telefone quando você precisa de uma informação ou quer fazer uma reclamação? E aquelas dores de cabeça causadas pelo período eleitoral? E as filas para pagar uma conta ou fazer um depósito no caixa do banco?
Começa a partir de hoje o blog dos Indignados, falando sobre assuntos que causam revolta, com desabafos consistentes e de interesse de todos. O objetivo não é apenas publicarmos posts sobre assuntos que causam indignação. Aqui faremos reportagens sobre alguns temas polêmicos, outros mais leves, e sempre buscando ouvir os dois lados, para podermos sugerir soluções e orientar nossos leitores.
Além disso, o Indignados será um espaço altamente interativo e cooperativo, onde os internautas podem participar não apenas enviando sugestões ou comentários, mas também fazendo suas devidas reclamações e escrevendo sobre as coisas que os deixam indignados.
Nosso e-mail para contato é: blogindignados@gmail.com